Minha pesquisa se desenvolve a partir do contato com diversos territórios e culturas. Em 2022, durante uma residência na Cité des Arts, em Paris, conheci produtores de alimentos de diversas regiões da França, cuja prática valoriza o conceito de “terroir” — a ideia de que o ambiente geográfico, o clima, a topografia e a cultura local influenciam profundamente as características e o sabor dos alimentos.
No Vale do Ribeira, ao sul de São Paulo, estou trabalhando em colaboração com comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas, que mantêm um sistema agrícola passado de geração em geração por séculos. Para esses grupos, a agricultura vai além de uma prática alimentar, é uma expressão cultural e de identidade.
Apesar de minha prática pictórica dialogar com a tradição moderna, meu trabalho é impulsionado por um engajamento contínuo com sujeitos concretos – sejam eles humanos ou não – e com o ambiente onde vivem. Procuro absorver as atmosferas locais a partir de uma percepção encarnada dos territórios que atravesso. As pinturas que emergem dessas experiências se alinham com os sujeitos que retrato, resultando em um processo no qual o ambiente se manifesta como uma presença ativa e integrada ao processo artístico.
Minhas pinturas mais recentes apresentam elementos considerados naturais, mas não se configuram como pinturas de paisagem. Este gênero da pintura se estabeleceu na história da arte contemporaneamente à empresa colonial e se caracterizou por uma tomada de distância do humano em relação ao mundo natural. Considero, portanto, essas pinturas como antipaisagens, uma vez que apresentam uma visão muito aproximada das coisas, suprimindo o amplo espaço ou recuo necessários à construção da paisagem.
Nessas imagens há uma espécie de confusão visual, caso tomemos a visão a partir da dinâmica de reconhecimento e isolamento dos diferentes elementos que compõem uma cena, baseada no espaço cartesiano. As imagens pelas quais me interesso não se orientam pelo reconhecimento do contorno de um indivíduo, o que me faz considerá-las também antirretratos. Ao apresentarem esses sujeitos não humanos, em um olhar aproximado e voltado para a multiplicidade, para o grupo – recusando o olhar ocidental que se estrutura tanto no retrato, quanto na paisagem, ambos baseados na tomada de distância e no recorte –, essas pinturas deslocam a ênfase do indivíduo para a relação, alterando nossa escala de apreensão da realidade. Afinal, é impossível pensar o mundo, o clima ou a ciência sem considerar um campo relacional, no qual tudo se comunica, interage e se afeta mutuamente.
Lembro-me do acontecimento silencioso, porém revelador, que me levou a fazer uma das minhas primeiras pinturas. Ao abrir a geladeira e encontrar algumas frutas reunidas em um prato, tive a sensação súbita de interromper uma conversa. Lembro-me também de realizar uma série de poemas e aquarelas que atribuíam humores e sentimentos às frutas e outros objetos.
Anos mais tarde me dei conta desse fio condutor sempre presente em meu trabalho: embora trabalhe com uma linguagem visual, interesso-me pelo que não é visível naquilo que vejo, tanto pelos sabores, aromas, texturas quanto pela forma como esses seres não humanos estabelecem relações no mundo. Essa relação animista, tensiona a separação estanque entre natureza e cultura, sujeito e objeto, que fundamenta parte da ciência moderna e se encontra na origem de uma relação extrativista com o mundo natural. Através da pintura, busco construir uma simetria na qual os seres representados possam se apresentar como sujeitos, inspirada tanto pelos saberes dos povos originários como pelo pensamento de figuras como Antônio Bispo dos Santos, Eduardo Viveiros de Castro, Bruno Latour, Isabelle Stengers e Phillipe Descola.

